terça-feira, 15 de maio de 2012

Lágrimas e um Arranhão

No momento em que ambos se olharam era como se um feitiço tivesse sido lançado no quarto. Mas logo depois, a criança pareceu notar a mão de Ayle em seu ombro e se assustou. Ele se soltou da mão da jovem e pulou da cama, puxando junto os lençóis.
Ayle, depois da surpresa, começou a ir atrás do menino, mas ele apenas se desviava e continuava correndo entre as caixas e objetos. A jovem já começava a ficar irritada, mas naquele momento seu pé prendeu em uma das tábuas soltas do piso e ela caiu. Sentiu uma minima dor na bochecha, e reparou que quando caíra, havia se machucado contra um prego. Irônico, contra cinco grandes homens com armas, ela havia lutado no meio da neve e vencido sem um arranhão, mas contra uma criança de quatro anos, ela se arranhava e rolava na poeira. Mas, seus pensamentos desapareceram quando ela reparou na pequena forma do seu lado.
O menino havia se aproximado, e agora a olhava com aqueles lindos olhos novamente.
Lindos olhos que formavam lindas lágrimas, que se formavam e caiam para o chão, repetidamente. Estaria ele com medo dela? Mas, se ele estava tão proximo não parecia ser o caso.
O menino estendeu a mão e seus pequeninos dedos se aproximaram de seu rosto, parando a centimetros de seu ferimento. Uma pequena gota de sangue se formou no corte e o menino pareceu ficar paralisado.
Talvez ele tivesse medo de sangue?
Ayle limpou a bochecha com a manga da blusa e observou a reação dele. Aos poucos a respiração dele, antes acelerada, pareceu se normalizar, mas ele ainda parecia em choque, com o olhar fora de foco.
Ela se aproximou e apenas nesse momento o menino pareceu reagir. Ele se moveu levemente para trás.
Antes que ele se recuperasse totalmente, ela o agarrou e sem paciência suficiente para esperar que ele tentasse escapar novamente, o agarrou sem deixá-lo escapar. Novamente a criança paralisou. Ayle estava começando a pensar se o contato com outras pessoas havia sido tão traumático assim para a criança. Ela o golpeou na nuca e o corpo do menino caiu mole em seus braços quando ele perdeu a consciência. Uma útilma lágrima escorreu pelo seu nariz e sumiu entre seus cabelos.
Ayle o ajeitou em seu colo. Não parecia certo levar um corpinho tão pequeno e frágil, como um "saco de batatas". Ela olhou à volta e pegou o lencol e o cobertor na cama, enrolou o menino. Afinal, ele era uma criança e estava nevando. Quando se levantou do chão empoeirado ela se perguntou novamente se aquela besteira toda de Estigma Sagrado era real. E por que uma criança choraria tanto com um simples arranhão em seu rosto.

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