sexta-feira, 1 de junho de 2012

Palavras...

Jun levou o copo cheio de cidra de maçã aos lábios e sorveu um longo gole. A última missão de Ayle era buscar o "Menino dos Deuses", e ele estava ali para ajudá-la. Mesmo que sua função fosse apenas ajudar com as negociações. Ele sorriu sozinho ao se lembrar da falha que Ayle era em conversas formais.
Mas era ela quem o havia salvado. Afinal, ele era apenas mais um orfão das Guerras Sem Fim. Um ladrãozinho que havia sido pego no flagra quando tentava roubar a bela forasteira. Ele ainda se lembrava daquele dia com clareza. Ela era uma bela mulher que havia chegado na cidade "á trabalho" e ele era um pirralho que fazia pequenos roubos para os delinquentes e homens do tráfico daquelas partes.
Ele ainda se lembrava de como ela havia aparecido do nada quando esses homens tentaram espancá-lo, talvez até a morte, por ter falhado no roubo. De como ela havia cuidado deles com graça e beleza. Uma figura que golpeava com elegancia e fazia homens sangrarem e chorarem a seus pés. Bela, Terrivel e Cruel como uma Tempestade.
Depois de resgatá-lo, ela o "adotou" e ambos começaram a viajar juntos. Ela o treinara nas artes da espada e logo ele também estava trabalhando na mesma guilda de mercenários que ela. Dez anos havia se passado desde então. Agora ele era um homem de vinte anos e iria ajdá-la e protege-la como pudesse.
Um vento frio cortou o aposento quando a porta da estalagem fora aberta e uma figura encapuzada entrou. Logo Ayle estava sentada a sua frente e após um leve cumprimento com acenar de cabeças, ela estava mastigando o pão com ensopado que a  mulher do dono da estalagem havia colocado na sua frente após o pedido de Jun. Ambos não falaram nada até que o peqeuno embrulho de panos que Ayle levava no colo se moveu. jun olhou espantado enquanto um pequenino corpo se espreguiçava e ajeitava no colo da mulher, como uma borboleta saindo da crisálida.
Mas sua respiração parou por um momento quando o menino abriu os olhos. Eles eram tão negros quanto a noite, mas as letras marcadas em sua irís brilhava em prata, como a luz da lua. Involuntariamente seu braço se esticou para tocá-lo, mas o pequeno se retraiu quando percebeu a aproximação.
Ayle rapidamente sussurrou algumas palavras para a criança que depois de ouvi-las pareceu mais inclinada a permitir o contato. Mas ele apenas deu duas batidinhas amigáveis na cabeça do menino e se afastou.
Alguns minutos mais tarde todos os três estava no quarto e Ayle se preparava para dormir, após ter ajeitado o menino.
Jun ficou acordado, olhando o céu, agora limpo, que mostrava um belissima lua cheia. Um pequeno roçar chamou sua atenção e ele viu o menino acordado, como os olhos brilhando prateados. Ayle havia dito sobre eles, que mudavam constatemente de cor.
O menino se paroximou e então falou.
 Pela primeira vez em tanto tempo falou.
E o que ele falou ficaria gravado na memória de Jun para sempre.
Ficaria gravado em sua existência.
Afinal, como palavras tão frias poderiam sair dos lábios de um criança com olhos tão cheios de inocencia?
"Eu preciso morrer".

Nenhum comentário:

Postar um comentário